Ele não estava perdido, o caminho era curto...a certeza era só mais um passo!...
Numa manhã de intensa neblina matinal em que o orvalho das forragens trás à memória a ténue imagem da espuma do mar de uma qualquer enseada, vai Júlio de mão dada com sua mãe à beira da estrada. Enquanto lhe afaga a cabeça, diz-lhe para enfiar na mesma o seu pequeno gorro de lã preta.
A viagem decorria sem sobressalto, ao ritmo do trautear monocórdico da voz masculina de seu pai e do ranger sistemático do aro já empenado no guarda lamas da velha pasteleira. O trautear cessou. O semblante de ambos os progenitores ficou num ápice carregado. Um tom soturno instalara-se. Júlio já não era um miúdo - pelo menos julgava-se assim -, tinha a certeza que era só mais um passo e as lágrimas brotariam que nem riachos cristalinos alimentados por chuvas de consoada.. Sua mãe não se conteve. Júlio não gostava daquelas árvores esguias nem do seu cheiro, ele sabia que ao seu aproximar sua mãe choraria. Desta feita ao segundo cipreste o pranto de sua mãe era enorme. Não era comum. “É uma data especial!” -pensara. Mas não se recordava ao certo. Quase simultaneamente sua mão desprendera-se de sua mãe dando lugar ao estancar da marcha e a um forte abraço entre os dois. “Porque choras? Não gosto de ti assim!” –disse Júlio. Sua mãe sorriu, ainda que envolta em lágrimas. Volvidos à marcha, só pararam novamente em frente ao imaculado mármore que continha uma foto em tons sépia de alguérm que o rapaz não conhecera e umas quantas palavras em seu nome. Sua mãe tirara-lhe já o pequeno gorro de lã preto. “Vai olhar pela bicicleta!” -disse seu pai friamente. “Põe o gorro à saída!” –retorquiu a mãe. Júlio não tinha por hábito questionar ordens, mas ultimamente sentia-se imbuído de um espírito que era misto de curiosidade e descoberta. Chegado ao portão preto de ferro, ligeiramente oxidado, reparou de rompante na incrição em cantaria da coluna direita da entrada do cemitério. “DESCOBRI-VOS!” À memória ocorreram-lhe logo os verbos, seus tempos e algumas conjugações, que aprendera até esta última Primavera. A neblina deu lugar à ténue mas pranzenteira luz de meia estação. O imperativo era óbvio, tal como o verbo descobrir, pensara instataneamente. Vós era a segunda pessoa do plural, aí lembrou-se do truque que ao plural equivale sempre um singular. “Descobrir-tu!” Havia algo a descobrir, mas o quê? Instintivamente procurou pistas. Havia uma data. Era demasiado óbvio. “Talvez...descobrir a mim?” -pensou. Isto não fazia sentido na sua cabeça. Ele não estava perdido e o caminho era curto, portanto a certeza era só mais um passo! Não hesitou, voltou a entrar, agora com o pequeno gorro de lã preto na cabeça e partiu em busca de seu nome ou sua foto. Os pardais praticavam já o matinal bailado, com seu gracioso esvoaçar. A enseada mudara-se agora para o céu. E Júlio procurava. Encontrou médicos filantropos, cuja população os méritos agradecia; reparou em grandes maestros de carreira; viu abastados empresaários em magníficos mausoléus, outros homenageados como beneméritos em causas sociais; encontrou também bravos militares que sua pátria muito honraram e por ela pereceram; viu também sepulturas em que a campa não existia, a homenagem era feita pela cor argilosa da terra que se confundia com ressequidas pétalas, mas de colorido garrido. Ele não estava perdido, o caminho era agora ainda mais curto, tal fazia da certeza só mais um passo. Essa era sua convicção e avançou determinado. A verdade é que a busca fôra infrutífera, não se encontrara. Sentia-se enganado. A enseada celestial dera lugar ao cinzento cerrado dos enormes e agourentos farrapos de algodão sujo. “Vai chover!” -pensou para consigo mesmo. O melhor é ajeitar o pequeno gorro de lã preto e voltar para junto de seus pais – foi o que fez sem hesitar. Ele estava perdido, o caminho fora longo e a incerteza invadira-o a cada passo!...
*
Ao tomar o caminho de regresso para junto de seus pais, Júlio reparou num senhor de meia idade, de cabelo e barba grisalha e já um pouco calvo, que sentado e enconstado a uma campa o fitava com um ligeiro sorriso. A curiosidade assaltou-o novamente e de rompante, como se de um impulso provocado por um inexplicável magnetismo se tratasse, dirigiu-se até aquele estranho personagem. Com toda a cortesia que lhe fora ensinada indagou:“Desculpe, costuma estar aqui muitas vezes?”; “Digamos que não tenho muitos sítios para onde ir Júlio!” -disse o enigmático senhor ; “Como é que sabe o meu nome?” –perguntou o rapaz. “Sei tudo sobre ti!” –replicou. “Sei que andas à procura de ti, mas no sítio errado”. “Ai sim? Então onde é que devia procurar?” –disse Júlio num tom arrogante. “Bem, não te deves procurar,nem entre os vivos, nem entre os mortos, pois questionar os vivos é o mesmo que guiar um rebanho de ovelhas: apesar serem todas diferentes tenderão a seguir a vontade somente de uma; por outro lado questionar os mortos é o mesmo que fazer perguntas a um livro: apesar de te poder ensinar bastante, jamais estabelecerás um diálogo com ele; portanto só questionando-te a ti próprio te encontrarás: imagina que colocas uma rolha de cortiça no nascente de um rio, primeiro irá atravessar uma etapa estreita e agitada, depois o rio irá alargando a pouco e pouco e as águas agitar-se-ão cada vez menos e por fim tomarás contacto com o mar e poderás constantar com clareza que os teus horizontes se tornarão tão ilimitados quanto a tua vista pode abarcar e quanto a rolha irá boiar. Só assim encontarás a tua essência”. “E o que é a minha essência?” –perguntou Júlio. “A tua essência são as escolhas acertadas que tomares em vida e que te farão feliz na morte”. “E quais são as opções?”; “As opções são ilimitadas, infelizmente não terás opotunidade de experienciar muitas...mas apesar de tudo serás exemplo para muitos...hoje aprendes-te a procurar os porquês, mesmo se te parecerem absurdos ou ingénuos, pois não há nada pior que ser-se adulto, estes agem sem espanto perante a vida, aceitam facilmente a monotonia, as regras e a opinião comum como o caminho certo, não alcançam o tempero da vida, o sal do mar: imagina a tristeza que seria ao saíres da escola e não teres contigo os caramelos que tanto gostas de saborear!” Posto isto, o senhor de cabelo grisalho agarrou na mão de Júlio e disse: “Faz com que estas palavras se tornem num ensinamento para que te visitará!” Júlio não percebera e não tivera tempo de perguntar pois ouviu a voz de sua mãe e deslocou o olhar no seu sentido. “Procurei-te por toda a parte, já te disse que não deves andar com o gorro enfiado na cabeça aqui dentro...e o que fazes junto da campa do teu avô falando sozinho?” -resmungou sua mãe. Quando Júlio virou novamente a face à procura do seu interlocutor, este desaparecera, mas mais chocante era o facto de a foto agora visível pela ausência do corpo do senhor de cabelo grisalho ser a imagem precisa do mesmo. Júlio absorto não foi capaz de articular uma só palavra. “Vamos embora! Já estás atrasado para a sessão de quimioterapia!” –disse sua mãe. Foi quando Júlio voltou a cair em si e se entristeceu, olhou para a sua mãe e disse: “Quero que estas sejam as palavras da minha campa”. E deu-lhe o papel que lhe fora ofertado momentos antes. Sua mãe sabia que ele não tinha ainda consciência da sua débil condição física, por isso fez um esforço tremendo para conter a mágoa e aceitou. Júlio faleceu duas semanas depois, sem nunca se aperceber que o “descobri-vos” era aplicado com o sentido de instar as pessoas a tirar o chapéu em sinal de respeito, para quem ali se encontrava sepultado e agora para com ele próprio. Na sua pequena sepultura, ao lado da de sua irmã, podia-se lêr: "DESCOBRI-VOS! NÃO TIREIS O CHAPÉU, PROCURAI ANTES ESPANTAR-VOS COMIGO, CONVOSCO E COM O MUNDO QUE VOS RODEIA!"
Todos nós andamos perdidos, o caminho será longo e a incerteza virá a cada passo...!